Você não é ateu, diz minha mãe. Você é à toa.

Você não é ateu,
Diz a minha mãe.
Você é à toa.
Você é cético e frio,
Dizem os meus amigos.
Frio por não acreditar
Em homens barbudos
Que ignoram todos os princípios
Da ciência, da ética, da inteligência,
Para me convencerem que as plantas
Escutam xingamentos
Que o universo conspirará ao meu favor,
Com as suas leis da atração,
A física quântica e, é claro, o segredo.
Você não é ateu, diz minha mãe
Você é à toa.
O dia em que água bater em sua bunda,
Você aprenderá a rezar.
Coitada.
Mal sabe a minha mãe que esta água
Já passou pelo meu quadril,
Pela minha alma,
E já atingiu o meu queixo.
Queria eu amar Deus.
Queria eu que a minha eternidade
Dependesse somente de amar um ser perfeito
Mas não.
Tenho que buscar o meu eterno nos instantes
No amor de um pai. De uma mãe.
Em cada um dos meus amores, sempre imperfeitos.
Seres repletos de manias. Chatices. Defeitos.
Queria eu amar Deus
E encontrar, em seus olhos, um plano.
Um plano para aqueles que morrem de frio
Que morrem de fome
Que morrem por tanto ódio e preconceito
Sabendo sempre que estes são os seus caminhos
Divinos.
Traçados para um melhor entendimento.
Você não é ateu, diz minha mãe
Você é à toa.
Coitada, talvez eu realmente seja.
Mas mal sabe ela o quanto tudo isso
O quanto o absurdo do mundo
E sua ausência de sentido
Me causam sofrimento.

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