Gatos

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Gatos me provocavam ambivalência- são elegantes e misteriosos. Entretanto, a ideia de tocá- los era angustiante: temia as garras, as mordidas e a autoconfiança. E a voz do meu pai dizendo que gatos provocam doenças e são traiçoeiros não saía da minha cabeça.
Meu filho, por outro lado, ama gatos. Não sei o motivo, já que para mim o amor incondicional e a subserviência dos cães eram mais confortáveis. Contrariando meu bom senso e desafiando a asma e a quase fobia aceitei Fofinha como a nova moradora da casa.
Fofinha chegou num sábado à noite. Uma amiga me convenceu que seria tranquilo e meu filho ficou muito empolgado. Ela parecia boazinha e tinha uns olhos azuis e bonitos. Até esse dia não tenho lembranças de ter interagido com um gato e lá estava aquele bicho peludo, vindo diretamente da rua e que cheirava todos os cantos da casa e se escondia por horas. Foram dias de estranhamento e surpresas. Ela parecia se interessar mais por mim que pelo meu filho, e para meu desespero decidiu dormir comigo. Foram semanas de insônia achando que seria atacada no meio da noite, mas ela ficava numa boa, e comecei a gostar daquele calorzinho. Graças à ajuda das amigas consegui que ela cortasse as unhas e tomasse remédios. Aos poucos fui aprendendo com Fofinha: ela faz as coisas no tempo dela. O que antes via como egoísmo virou admiração. Gatos são limpos, cuidam do corpo, enterram seu lixo e fazem até alongamento. Fofinha sabe que precisa estar bem para se doar para o outro, que não adianta despejar as suas carências, e que é preciso descansar (metade dessas coisas levei uns dez anos na terapia para entender). Meu filho ficou muito mais tranquilo e feliz. Diferente dos meus
cachorros, ela me presenteou com um amor tranquilo, respeitoso (às vezes escapam umas mordidas) e um silêncio reconfortante. Soube estar a meu lado sem invadir, a oferecer carinho sem sufocar, e me recebe em casa sem a alegria esfuziante que é muito cansativa depois de um dia cheio. Fofinha saiu da vida difícil da rua, mas quem ganhou mais nessa relação fomos nós. E vivemos felizes para sempre até que Clarinha, uma gatinha filhote veio para colocar a vida de pernas para o ar. Mas essa é uma outra história.

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