Das cinzas às cinzas

 

cinzas as cinzas

 

 

Assistia ao noticiário distraída quando viu a catedral em chamas e ficou chocada. Olhou a foto no rack empoeirado onde sorria abraçada com o ex marido e a mesma catedral ao fundo, emoldurando promessas nunca realizadas. Conhecer Paris era seu sonho de infância, apenas realizado na lua de mel tão planejada (e já frustrante como foram os doze anos juntos). Devaneios tomaram conta da sala, as lembranças daquele passado que parecia tão distante e ao mesmo tempo presente na foto. O tempo passou, ele saiu de casa, as roupas deixaram um vazio escuro nas gavetas e ela ficou ali, sozinha. A fumaça encobrindo a catedral, os escombros, o fogo implacável a deixaram perturbada. Na cozinha tomou um copo de água distraída, aceitando refletir depois de muitos anos anestesiada pelos calmantes e uísques. Percebeu que o amor, o casamento e até mesmo aquela catedral que parecia tão permanente viraram pó. Nem ela se reconhecia mais, a alegria esquecida em algum canto, os sonhos trancafiados em meio a adiamentos e justificativas. Pegou a foto e queimou ali mesmo na chama do fogão, encerrando o casamento, a fuligem ganhando novos rumos e trazendo um pouco de leveza àquela casa. Assim como Notre-Dame ela também se reergueria, mesmo que demorasse. Aliviada, desligou a televisão e foi dormir tranquila.

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