Estação Alvorada

É por demais comum que o homem – este ser muito sofrido já desde a infância – busque em curtos trechos do caminho, qualquer posição descansada, que lhe dê curto conforto antes da retomada à sua batalha. Mas é também muito comum a exceção de toda regra se este mesmo ser se encontra pelo amor atravessado.

Estavam os relógios todos a marcar as sete horas. Não que algum dos tantos seres dentro daquele ônibus pudesse agora ter a destreza de levantar o pulso até a altura dos olhos e conferir as horas, mas algo impresso na rotina, tal qual um relógio biológico lhes assegurava o horário. Em um assento apertado no canto, próximo ao fundo do automóvel, Romero ia sentado. Regalia que era rara naquele horário e que para quem a frente enfrentaria as nove horas da jornada de trabalho, Romero ia em mantra, agradecendo a qual fosse o santo que lhe concedera tal regalo. Eram quarenta minutos de estrada dentro daquele coletivo abarrotado, entre ladeiras e freadas, entre se segurar e tomar bolsadas, quarenta minutos talvez únicos que durante todo o dia, Romero passaria sentado. Estava então tudo perfeito, seu plano era simples e sem falhas, permaneceria quieto ali sentado e na altura de tua parada, quanto tivesse de abandonar aquela caixa, se arrastaria organicamente pela compacta multidão até o lado de fora. Mas é que a vida prega peças e os santos não dão conta dos teus regalos, e naquele momento inapropriado, embarcou na outra ponta a mais bonita passageira daquele itinerário. Teria sido só mais um amor platônico se seus olhos não tivessem se cruzado e tivesse sido devolvido com a mesma ou maior intensidade a vontade revelada.
Romero cativou e havia sido cativado, disso nenhum dos apertados ali duvidava, o próximo movimento que agora até o motorista pelo retrovisor esperava era que decisão por fim Romero tomava. Se permanecesse sentado a angustia do “e se” lhe tornaria um fardo, se levantasse ao curso de tua amada, nunca mais durante aquele dia, quiçá naquele mês, outra vez se encontraria sentado. Nenhum homem jamais enfrentara tamanha questão e todos agora, incluindo o cobrador, ansiavam embasbacados.
Mas o nosso herói Romero, faria o que havia de fazer. Colocaria tua mala ao colo da senhora ao teu lado e em um movimento flexível e ensaiado deslisaria por entre todos aqueles rostos espantados e alcançaria em teus braços a Dulcineia apaixonada. E após um “Olá” e um “eu me chamo”, em um suspiro suspenso por uma freada, a voz do motorista soaria afastada.

_ Estação Alvorada!
_ Eu desço aqui.

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