Muda e falante

muda

 

 

Era quase hora do almoço, calor quase insuportável na enfermaria. Passo por um quarto e percebo uma senhora no canto me chamando. Ela se agitava e tentava falar mas a voz não saía. Estava traqueostomizada e respirava com a ajuda de um ventilador. Seu nome era Lúcia e tinha um sorriso no rosto que ainda vejo mesmo depois de vinte anos.
Pediu que eu ajeitasse seu travesseiro, mas era só uma desculpa para conversar. Era
pedagoga, alfabetizava crianças, mas agora estava afastada. Distrofia muscular progressiva. Perdeu dois irmãos pela mesma doença. “Agora é a minha vez”, disse com um olhar triste. Dona Lúcia virou minha companheira frequente naquele estágio. Sempre ia lá dar um oi, trocar umas palavrinhas. Ela sabia de tudo que se passava nas enfermarias, era muito atenta. Tinha um bom humor e capacidade de aceitação invejáveis. Ficou meses lá, e me ensinou muitas coisas. Deu dicas do exame neurológico (eu sempre me atrapalhei com aquele martelinho), contou histórias de sua vida e sempre manteve a esperança de sair do hospital. Não esmorecia nem com a falta de visitantes. “A família se cansa”, observou com sabedoria. Acompanhei seu desmame do ventilador e suas pequenas conquistas. Uma vez resolvi visita-la num domingo, que é o dia em que o tempo demora mais a passar num hospital. Fazia muito calor e ela estava branca, quase translúcida. Conversamos e demos risadas. Foi o melhor que pude fazer por ela, já que era apenas uma aluna de terceiro ano de medicina. Dei um beijo em seu rosto e ela teve
alta poucos dias depois.
Nunca mais soube de dona Lúcia até o ano seguinte quando durante a aula de pneumologia a professora comentou de uma senhora com distrofia muscular que desenvolveu um câncer de mama agressivo e morreu poucas semanas após o diagnóstico. Saí da sala para chorar e me culpar de não ter visto, não ter examinado, de ainda ter vergonha de fazer exame de mama. Fiquei arrasada ao constatar as falhas dessa medicina que divide a pessoa em pedacinhos e não cuida do paciente como um todo. Aprendi da pior maneira que um bom médico precisa enxergar sempre além. Desculpe dona Lúcia. E obrigada por ter me ensinado mais essa lição.

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