Nenhum sorriso é em vão

vÃO

 

 

 

 

Reencontrei o Renato. Era aniversário de um amigo em comum. Não falava com ele há mais de 10 anos. Nenhuma notícia dele. No passado, tivemos uma amizade bonita, que acabou enfraquecida depois que Renato inventou mentiras sobre mim, quando eu estava vivendo um momento difícil, emocionalmente fragilizado.

As mentiras que Renato espalhou eram daquelas que não são totalmente mentiras. Existia verdade no que contava a meu respeito, mas apenas a quantidade necessária para conseguir conquistar a atenção e a confiança de seu interlocutor, e, então, inventar suas mentiras – que me causaram dores terríveis por anos. Em outras palavras, o que ele fazia era pior do que mentir, porque mentia para destruir.

Quando o vi, meu primeiro impulso foi ignorá-lo. Pensei em tratá-lo com rejeição e desdém a noite toda, como quem joga na cara do outro as suas culpas. Queria que ele se sentisse totalmente invisível para mim, uma existência insignificante.

Depois desse primeiro momento, percebi que agir assim falaria mais sobre mim do que sobre o Renato. Que se eu agisse dessa forma, seria o Renato a determinar a minha atitude, não eu mesmo. Ele seria o meu senhor, e eu, o seu escravo. Eu não queria que Renato fosse o dono das minhas decisões.

Decidi que eu seria o protagonista daquela relação. Eu não deixaria Renato determinar o que havia entre nós: eu determinaria. Para minha surpresa, Renato veio até mim e puxou conversa. Conversamos por horas. Falamos da vida, trabalho e estudos. Em nenhum momento, contudo, ele se retratou. Simplesmente fingiu que nada havia acontecido.

Eu sorri. Não cobrei o Renato de nada. Não o tratei mal. Conversei e me abri, reparti coisas da minha vida e dei a ele a minha amizade. No fundo, não se tratava de dar a ele o que merecia, mas de dar a ele o que eu tinha para dar. Aquela conversa que tivemos falou sobre mim.

Entendi que se eu desse ao Renato o que ele “merecia”, eu estaria me diminuindo, não o diminuindo. Era sobre mim aquele momento, não sobre ele. Entendi, também, que nenhum sorriso é em vão: porque diz sobre a pessoa que dá o sorriso, não sobre a pessoa que o recebe.

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