Pedras e perda

pedras

 

Essa é uma das piores dores que existem, o médico falou. Ela já sabia. As pedras nos rins a acompanhavam desde a adolescência. Conhecia bem os sinais. Às vezes eram pontadinhas discretas que iam aumentando e se fazendo presentes até ela não conseguir ficar em pé. Outras vezes eram espasmos, contrações, espinhos rasgando a uretra até a pedrinha sair e tilintar no vaso sanitário, provocando dor e alívio ao mesmo tempo. Já estava tomando mais água e chás, mas volta e meia passava a noite no pronto-socorro. Culpava o stress e ignorava quando a terapeuta insistia em entender o motivo. Está tudo bem, dizia.

Na verdade não estava. O trabalho a deixava profundamente infeliz desde que aquele chefe havia assumido o setor. Relatórios, metas e reuniões de feedback a sufocavam. Não bastava fazer tudo certo, parecia que sempre faltava alguma coisa. O perfeccionismo dele era um par perfeito para seu lado exigente e crítico. Chegava em casa exausta, o marido e as crianças reclamando o tempo todo de sua atitude distante. Não conseguia comer direito, almoçava na mesa de trabalho, ligada no notebook e celular, engolindo qualquer opção gordurosa da lanchonete. Ganhou peso e perdeu a libido e o encantamento pelo marido. A mãe havia falecido há seis meses e ela mal havia conseguido chorar a morte dela, os antidepressivos bloqueando as emoções e deixando a vida anestesiada.

Só que aquela crise era diferente, muito pior que as outras. Mais dor, mais sangue, mais vontade de desaparecer, as medicações na veia insuficientes para minimizar seu sofrimento. Passou a noite ali, sozinha, o soro gotejando sem pressa, uma súbita calmaria na sala de enfermagem. A epifania veio. Não aguentava mais aquela vida, a correria, as insanidades do trabalho, o afastamento da família. Percebeu que o único momento que tinha sozinha era quando ficava internada, que seu corpo estava gritando por descanso e que as pedras eram angústias e insatisfações embaladas em cristais de cálcio. Deveria haver outro modo de lidar com tudo isso, aliás era a única alternativa. Ela respirou fundo e decidiu que amanhã sua vida tomaria um novo rumo. E adormeceu em paz depois de tanto tempo.

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