Quando eu era jovem, muito jovem, trabalhávamos para uma agência de catálogos telefônicos de fundo de quintal, em um espaço improvisado atrás da casa do proprietário.
Jésus, com acento no  “Jé”, o sobrenome já não me lembro.
Na entrada do escritório, bem ao lado da porta, rente à parede havia um enorme aquário. Cheio do que acho que se pode chamar de mobílias para aquário. Mais tranqueiras do que peixes, mas haviam exatos quatro peixes dislexícos ali também dos quais éramos encarregados de cuidar.
Todas as manhãs quando entrava no escritório, antes de mais nada Jésus se apoiava sob os joelhos e ficava de costas para nós, olhando os peixes por uns cinco minutos, depois se virava e dizia em voz alta para todos e para ninguém:
_ Deve ser chato ser um peixe!
Dia após dia, sem falta ele repetia esse movimento, entrava, se abaixava, observava, se virava e exclamava: “Deve ser chato ser um peixe.”
Nos dias que por indisposição ou por ter viajado, Jésus não aparecia no escritório, sempre tinha um engraçadinho de comentava: “Triste, ninguém ofendeu os peixes hoje!”
Sempre fiquei pensando no que ele queria dizer com aquilo, parecia um pouco obvio, claro que devia ser chato ser um peixe.
Passar a vida ali, em um espaço tão limitado, com toda aquela mobília de mau gosto e o reflexo distorcido do mundo aqui fora.
Não há qualquer lugar onde se possa ir, o cubículo é seu mundo e seu limite e, caso se esforce num empuxo para fora, a morte certa lhe aguarda na curiosidade do gato ou na ausência de ar.
Acho que o Jésus era meio assim, era de idade, de opiniões maciças em volta da mente. Acho que nunca foi longe demais, as coisas que dizia eram copias das copias que o pai dizia, que o avô dizia. Vivia sempre dentro daquilo e para ele era o bastante.
Se se atrevesse a olhar para além, o que via era um mundo distorcido, com pessoas distorcidas e aquilo lhe parecia errado, se ousasse ver aquilo mais de perto, acho que acreditava que seria devorado por algo ou que lhe suspenderia o ar.
acho que era assim desde muito novo e com o tempo ia ficando pior. Jésus devia viver morrendo de medo de virar um peixe.
Depois de alguns anos saí de lá, mas sei por amigos que a empresa durou muitos mais anos e provavelmente a rotina do Jésus com os peixes também.
A pouco tempo encontrei um antigo colega da época do escritório que me disse agitado.

_ Ficou sabendo do Jésus?
_ Não, morreu?
_ Pior!
_ Então vai viver para sempre? – Falei!
_ A coisa é séria, dizem que ele desapareceu.
_ Deve ter dado no pé, sempre gostou muito mais do Nordeste do país. Ele era um homem velho, à essa altura já morreu e ninguém por aqui ficou sabendo.
_ Não, só desapareceu. Deixou roupa, carro, tudo. Disseram que o escritório onde a gente trabalhava foi encontrado aberto e sem sinal de ninguém, falaram até em sequestro, mas não levaram nada, estava tudo no lugar, as mesas, as maquinas e o aquário com os velhos cinco peixes.
_ Não eram quatro?

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