Queda livre

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Eu poderia falar sobre a melancolia que às vezes toma conta de mim e enche o meu peito de afastamento, eu salto pelo precipício do silêncio e continuo caindo por longo tempo sem gritar, olhando para a escuridão de olhos fechados, enquanto você adoça o seu café e fala da sua vida, eu aprendi a cair mesmo sem ninguém notar, em todas as conversas eu escuto, não falo da minha vida, por isso muita gente gosta de falar comigo, na verdade elas falam com elas mesmas enquanto eu continuo caindo, pois cair é voar em busca do chão.

 

A cidade me olha a noite quando os vencedores, os heróis e os perfeitos dormem, eu estou caindo e a cidade gosta de ver a minha queda, ela diz que tenho certa elegância nisso e por isso sempre amarra os meus sapatos enquanto eu caio.

 

Em alguns raros momentos eu vou caindo mais devagar e cruzo com algumas pessoas que querem o céu das coisas, em algum momento nasce um amor cheio da impossibilidade que as direções opostas adoram, eu não sei o motivo, mas algumas pessoas nascem com fome de céu, sempre querem subir, o andar mais alto, a cadeira principal, o protagonismo é uma agonia.

 

Eu estou caindo e quero cair, continuo buscando o chão das coisas para poder descansar, voar é esforço, cair é ser carregado pela chuva, eu quero a queda, dos edifícios, das certezas, das roupas, da perfeição, mas antes de ser empurrado pela realidade eu fui sozinho, dei um passo no chão ausente e caminhei.

 

Estou caindo enquanto você adoça o seu café e pensa nos seus boletos.

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