Feliz Natal

 

natal

 

 

 

Somente ontem, quando andava pelas ruas, é que me dei conta de que o Natal havia chegado. Assustei, confesso. O brilho das lâmpadas coloridas não foi forte o suficiente para reacender meu entusiasmo. Estou velho, cansado. Sento-me no sofá desbotado como eu e ponho-me a recordar a magia de outros Natais.

Como gostava de ajudar mamãe a enfeitar a árvore! Bolas vermelhas, estrelas douradas. E os presentes, então? Aquelas caixas envoltas em papel laminado prometiam tardes maravilhosas de brincadeiras no quintal. Todos se reuniam: avós, tios, primos…

Olho para o relógio empoeirado. As horas escoam lentas nesse meu flashback barato. Lembro-me de Clara, a doce Clara. Como a amei, Clara! Nosso primeiro encontro foi num 25 de dezembro distante. Você foi o meu melhor presente de Natal, presente de vida inteira. Pena não ter durado a vida inteira, pois se assim o fosse, não precisaria estar aqui sozinho. Sozinho.

Sinto novamente o cheiro das nozes, castanhas, avelãs, do peru embriagado de véspera, do batom de Clara. Nostalgia.

Manuel Bandeira tem uma poesia, “Versos de Natal”, que fala de um velho que gostaria de por seus sapatinhos na janela. Ah, Manuel! Como gostaria de acreditar novamente em Papai Noel, em Jesus Cristo, em sapatinhos, no amor! Mas é tarde. Ouço os sinos badalarem ao longe e só quero esquecer. Sem clichês do tipo eu era feliz e não sabia. Hoje sei. É tarde, repito. Todos se foram e os fantasmas já não preenchem o meu vazio. Quero apenas dormir, dormir. Boa noite, Manuel.

(Escrito em 1992)

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s