Morra para quem te matou

morra

 

A conversa já durava duas horas. Entre lágrimas, raiva e lampejos de desespero, ele buscava argumentos que fossem magicamente capazes de mudar a decisão dela de partir. Todos em vão. Seu coração já tinha ido embora, agora ela só estava levando o resto de seu corpo junto.

Depois de horas se humilhando, ele percebeu que ela já nem estava mais ali. Sua atenção parecia estar do lado de fora, projetando sua nova vida para além daquelas paredes. Ela já nem o encarava mais. Quando acidentalmente os seus olhos se cruzavam, ele apenas enxergava um olhar de vidro, sem nenhuma alma do lado de dentro.

Já no final de seu esforço, ele entendeu que já estava morto. Ela o havia matado há tempos dentro de si mesma, era ele que insistia em viver nela. Os sinais de sua morte estavam claros, ele que os ignorava. Cada vez que ela não colocava duas xícaras na mesa; as idas sozinha ao cinema; a decisão de escolher suas roupas sem pedir a opinião dele; as pernas que não se enrolavam mais na cama. Já não haviam sinais vitais.

O grande erro dele foi não morrer para quem o havia dado como morto. Ao suplicar vida dentro dela, ele também morria um pouco para si mesmo, porque ninguém sobrevive inteiro à humilhação de estar se alimentando das migalhas do outro.

O amor próprio é o único caminho para morrer em paz numa relação, mas continuar vivo para todo o resto. Quem não se ama vira um defunto mendicante, convencido de que é a esmola do outro que confere valor à sua vida.

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