O mais difícil na morte é esperar por ela

 

morte

 

A ideia da morte senhora vestida de preto com a foice sempre me pareceu assustadora mas muito elegante. Fico imaginando um vulto longilíneo farfalhando as vestes pelos corredores dos hospitais ou naqueles cruzamentos perigosos nas estradas, pronta para pegar alguém pela mão.
Sabemos que ela virá e não há nada mais certo que isso. Apenas fingimos que ainda não é a hora. O mais difícil na morte é esperar por ela. Aquele momento em que você ou alguém que ama recebe aquele comunicado que é só uma questão de tempo. O que fazer nesse intervalo?
Impossível comer, dormir, o ouvido atento a qualquer ligação da madrugada, o último suspiro, as providências a serem tomadas. O boletim da UTI ou aguardar em casa. Morrer pode ser demorado, e as previsões nem sempre se realizam. Às vezes a morte nos encontra adiantados ou atrasados demais. Ver o corpo diminuir de tamanho ou inchar consideravelmente, a respiração ficar mais pesada ou agonizante, os olhares embaçados. Quem mora longe fica sem saber em que momento marca o voo ou se compra bilhete de ida apenas. Morrer doi, pelo menos para quem assiste. Pior ainda é aquela morte certeira e instantânea, sem a possibilidade de despedida e que nos deixa com gosto de saudade amarga na boca. Admiro profissionais de saúde, bombeiros e policiais que têm a morte como companheira de trabalho e a encontram quase diariamente. Será que o medo deles diminui?
O mais difícil na morte é esperar por ela e fazer o cara a cara, enfrentar o que fizemos e
principalmente o que deixamos de fazer, os arrependimentos e o que desistimos de realizar. O que a morte leva é o tempo, tempo que deixamos de passar com as pessoas que amamos, tempo que deixamos de viver porque estávamos preocupados com banalidades ou afazeres tolos.
Sempre digo que quero trabalhar até um dia antes de morrer, tentando assim fazer um acordo imponderável com ela: me avise quando estiver chegando para te esperar com serenidade no rosto, a sobrancelha e buço depilados, as contas pagas, as despedidas realizadas e uma noção melhor do sentido da vida. Ela apenas sorri. Sigo esperando e resolvendo as pendências. O tempo não para. Corra.

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