Stairway to heaven

 

Stairway to heaven

 

 

 

Dona Arlete era uma senhora visivelmente bem-educada. Carregava modos e
vocabulário diferentes das outras pacientes internadas e suas roupas desgastadas
traziam uma certa nobreza. Entretanto, tinha uma aparência deteriorada por um
transtorno mental que fora negligenciado ao longo de muitos anos. Estava doente,
velha e sozinha. Durante a internação parecia organizada exceto quando revelava seus
delírios místicos e se dizia capaz de conversar com anjos e ouvir revelações de Deus.
Comentava com reserva sobre essas experiências em parte por saber que poderiam
ser provenientes dessa doença que ela carregava desde os 24 anos. “Dizem que é
esquizofrenia, minha filha, mas quem sabe não é apenas um chamado?”
Jejuava e fazia orações de forma contínua, como se desejasse construir uma linha
direta com Deus. De tanta fraqueza tinha que se locomover com cadeira de rodas.
Gostava de puxar conversa com a voz fraca e as palavras bem articuladas, chamava a
médica assistente de catedrática, e participava das terapias em grupo com
comentários sagazes e divertidos.
Um certo domingo quando fui evoluir as pacientes internadas a encontro no quarto,
de camisola e chorando muito. “Os anjos pararam de falar comigo. Minha vida perdeu
o sentido, filha. Prefiro morrer a deixar de me comunicar com eles”.
Confesso que não tive coragem de dizer que era a medicação antipsicótica que estava
funcionando e que todo sentido da vida de Dona Arlete fora construído a partir de um
desequilíbrio de dopamina e serotonina em suas sinapses. “Vamos dar um passeio”,
sugeri, contrariando a enfermeira sisuda. Ela pegou seu casaquinho de lã e fomos até a
capela do hospital, no último andar. Enquanto empurrava a cadeira de rodas disse que
lá a comunicação com os anjos deveria ser melhor por ser um andar mais alto. Minha
esperança era encontrar alguma ajuda espiritual. A capela estava vazia e ela sugeriu
que rezássemos um terço. Aceitei, e aos poucos ela foi relaxando e eu também. Por
fim me agradeceu e quando perguntei se havia falado com os anjos sorriu de leve.
“Deus se manifesta de diversas formas”. E o domingo ficou muito mais bonito.

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