Madrugada

 

madrugada

 

 

Lembro a primeira vez que você apareceu, tinha seis ou sete anos. Minha mãe saiu do quarto, fechei os olhos e de repente lá estava você, sentada a meu lado falando coisas em meu ouvido. Fiquei distraída e quando percebi horas passaram. Acordei exausta no dia seguinte. À noite lá estava você de novo, com outros pensamentos atrapalhando meu sono, ora medo, ora devaneio, ora lista de tarefas. Desde então nenhuma sugestão tem resolvido para te afastar de mim. Minha mãe me disse para contar carneirinhos, mas você fazia com que eles corressem e fizessem acrobacias loucas, me deixando quase empolgada. Outras vezes eles tropeçavam e caíam, me fazendo dar risadas. E nada do sono vir. A escuridão da noite era só minha, as pessoas descansando em seus quartos.
O tempo passou e você sempre esteve por perto, me acordando no meio da noite, soprando ideias em meus ouvidos, me torturando com pesadelos tão reais, especialmente às vésperas de situações importantes. Depois daquele sonho que me perturbou foram quase seis meses em que você me chamava pontualmente às 3:30 da madrugada. O medo estava sempre ali, o sonho no qual aquela amiga querida era assassinada manchando o tapete claro voltava como se fosse real. Tentei de tudo para te eliminar, os tarjas pretas e vermelhas, chás milagrosos, relaxamentos e orações, mas o dia clareava, você ia embora (até a noite seguinte) e eu apagava na meia hora final antes do despertador provocar palpitações.
Enfim resolvi te aceitar. Parei de tomar remédios que me deixavam sem raciocínio pela manhã, comecei a deitar mais cedo e a ouvir o que você tinha a me dizer na madrugada. Às vezes você me ajuda: tenho que te agradecer por aqueles diagnósticos e prescrições que você me fez pensar, as horas de silêncio em que nos sentamos no sofá da sala com aquele livro em muito adiado, pelos amanheceres que assistimos juntas. Você faz parte da minha vida como as dores articulares e o sopro sistólico. Uma amiga (meio carrasca às vezes), uma companhia. Você entendeu e tem me dado uma folga, o que me fez voltar a ter vontade de deitar na minha cama quentinha e fechar os olhos tranquila. Boa noite, insônia. Até a próxima.

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