Estranho.

Ao contrário do que nos ensinam quando pequenos, hoje uma das coisas que mais acho interessante é justamente falar com estranhos. Com um mundo tão vasto os cenários que possibilitam entrar em contato com alguém são os mais diversos possíveis. Desde a famosa fila de banco, balcões de cafés, calçadas desertas, estações de metrô, trem, cartório, velório (sim, por que não?), são sempre um lançar-se para uma nova experiência, o contato com o (des)conhecido.

Eu faço experiências confesso, escolho um “alvo” e observo, mas calma, não é simplesmente chegar e já ir falando, há um momento certo, isso mesmo um timing quase cômico que fará o elo, a conexão para uma fala e uma resposta e dependendo desta a conversa poderá tomar rumos bem interessantes.

Outro dia ouvi no supermercado uma conversa entre senhoras: “Então você coloca a berinjela, leva ao forno e fica pronta rapidinho!”. Intrometido? Claro que fui, como um aspirante à cozinha logo tratei de me infiltrar na conversa e constatar que se tratava de uma troca de receitas secretas. Passei meu telefone e não é que uma senhora me ligou no dia seguinte para me passar a receita? Agora eu faço parte do clã das receitas secretas que não estão na internet.

Porém, não são somente de receitas que se faz o ser humano, há sempre algo a dizer, um silêncio ali incubado, o não dito, que fica ali sozinho, tapado disfarçadamente com a repetida realidade vivida quase que automaticamente por nossas juntas, ossos e alma. Para as nossas dores a entrada pode ser um sorriso. É fácil conversar, descontrair e até arrancar pequenas risadas espontâneas. Difícil é ouvir e ver nas entrelinhas.

Aquele olhar ora distante diz algo, aquela respiração contida, as noites de silêncio lá fora e barulho dentro de nós. Já tive conversas profundas, de pessoas que mal conhecia e que como flecha me atravessaram. O estranho nem sempre significa distante de nós, pode nos soar tão familiar como uma dor pelo medo do amanhã ou por não sermos amados.

Nesse sentido, tais experiências me trazem sempre a sensação de descontrole sobre o que pode nos acontecer no instante seguinte, mas como diz a música de um grande amigo: “Se podemos nos perder, por que não nos encontrar?”

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