Antes das seis

antes das seis

 

Era o mesmo ritual há anos. Acordava antes do sol, calçava os tênis velhos e saía na rua, em jejum e contrariando o cardiologista que havia encontrado uma falha no seu ritmo cardíaco. Não se importou porque sabia que o que fazia seu coração bater descompassado não eram aqueles 60 minutos e sim o resto do dia cinza. Seus tênis eram como as capas dos super-heróis. Sentia-se forte, livre, a superação de mais um quilômetro apagando todo o cansaço ofegante. Corria para viver. À medida em que o corpo acelerava a mente ia clareando e as ideias surgiam. Os carros começavam a encher as ruas mas ela seguia em frente. Corria para fugir da raiva, da preguiça. A cada passo ia ficando mais leve, a discussão com o marido e o relatório anual cada vez mais distantes. Corria para se esquivar das tristezas. Não importava a chuva, o frio, as dores. Tudo ficava para trás. Parou de controlar o tempo, a frequência cardíaca, as calorias perdidas. Era a saúde mental que importava, aquele momento em que as sinapses eram inundadas pelas endorfinas. Se soubesse como era bom não teria perdido anos naqueles equipamentos de musculação. Depois, o banho e o café da manhã aquecendo as
ideias fresquinhas, as roupas vestindo melhor e aquele sorriso de satisfação e dever cumprido.
E que o dia comece.

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