Cansei de ser gorda

cansei

 

Ela tinha quarenta anos e uma vida inteira de dietas. Lembrava da primeira consulta com o endocrinologista aos doze anos. Saiu de lá com uma lista de substituições e uma receita azul. Vendo as fotos nem era tão gordinha assim, mas a mãe discordava. Achava sua barriga estufada e alguém até sugeriu retirar uma costela.
Remédios para emagrecer? Tomou todos, de tarjas multicoloridas. Fórmulas naturais, cápsulas milagrosas, colágeno suficiente para preencher centenas de corpos.
Aos quinze anos já conhecia o efeito sanfona e todas as reações que as anfetaminas causavam: euforia, perda de peso rápida, ficar quase incrível naquele vestido justo, e depois insônia, crises de choro e recuperar o peso perdido. Hora de consultar outro médico.
Suplementos, cremes redutores e termogênicos experimentou todos, bem como drenagem, carboxiterapia e aquelas enzimas proibidas. As pessoas diziam que ela tinha um rosto lindo. Mas ela só conseguia enxergar celulite, flacidez, gordura localizada. Mal conseguia se olhar no espelho. Aliás, nunca viu algo em si que admirasse. Não tirava a roupa na frente de ninguém, sexo só na penumbra. Prendia a respiração nas fotos e nunca desistiu de entrar naquela calça branca 36.
Recusou convites por causa do peso, nunca usou biquíni, abandonou as regatas pois os braços eram enormes. Mentalmente se comparava com todas as mulheres. Ora vivia no limite da restrição, ora se afundava na companhia de potes de sorvete no escuro do quarto.
Desejava mais que tudo ficar velha logo para se libertar. Mas esse momento nunca chegava, a felicidade sempre a 3kg de distância. De tanto seguir dieta macrobiótica, mediterrânea, da proteína, dos vigilantes, perdeu o gosto pela comida. Aliás, percebeu que a comida era um inimigo, algo que trazia sofrimento ou um amante furtivo encontrado às escondidas.
Começou a cozinhar e aprendeu a diferença entre se alimentar e se nutrir. Com a terapia
decidiu deixar de ser refém de números e passou a assumir suas curvas e imperfeições.
Finalmente percebeu que aceitar seu corpo a deixava mais leve. E pela primeira vez comeu aquele chocolate favorito sem culpa.

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