Quem é você?

quemevc

 

Quem é você?

O casamento acabou. Vinte e cinco anos juntos, dois filhos, um cachorro e ele preferiu
recomeçar. Saiu de casa num domingo a tarde.

Ela se humilhou, chorou, rasgou fotografias, fez ameaças, as amigas consolando. Depois
vieram os papéis de divórcio, mudança de documentos, guardar a aliança (ou jogar fora?), reorganizar armários vazios repletos de memórias.

 

A identidade fora soterrada pelos gostos do marido e já não se lembrava qual seu prato preferido nem se gostava mesmo de jazz. Não sabia viver sozinha e afinal estava velha demais para isso. Tentou desesperadamente encontrar um parceiro, alguém para encaixar no seu lego desfalcado. Obviamente não deu certo. Sentia-se totalmente fora nas baladas monocromáticas, nos aplicativos repletos de gente carente, nas festas de família. Só encontrou corpos e copos vazios, intimidades forjadas, angústia na espera por um carinho. Quem se divorcia perde um lugar e é fácil se sentir de lado, os convites de casais rareando, as amigas com medo de ter uma mulher avulsa em seu círculo social.
Cortou o cabelo, comprou roupas mais curtas, aplicou botox e pela primeira vez experimentou unhas vermelhas, mojitos, ménages. Estava mais magra (porque afinal algo de bom teria que vir junto com o sofrimento), e nem parecia ter quase 50 anos. Passou a sair com qualquer um que lhe desse atenção. Da terapia veio o diagnóstico de euforia pós separação e uma sugestão de se conectar consigo. Depois do terceiro namoro frustrado e de chorar um fim de semana inteiro decidiu se dar um tempo. Ela não sabia mais quem era, do que gostava, o que queria, tão soterrada pelos papeis de filha, esposa, mãe. O ex marido já estava casado e os filhos dormiam fora de casa e ela ainda estava sem rumo.
Pediu licença do trabalho, abandonou a ideia de buscar um parceiro e decidiu viajar para finalmente estudar inglês. A grande lição foi perceber a liberdade e o tamanho do mundo. Virou sua melhor companhia. Aprendeu que a completude vem de dentro e é inútil esperar que alguém vá preencher nossos vazios. E nunca mais se sentiu sozinha em domingos cinzentos.

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s