Dislexia amorosa

Leia com (des)atenção

 

Era inteligente, aplicada.

Mas não conseguia aprender com os relacionamentos.

Dislexia amorosa, diagnosticou um terapeuta.

Desconhecia os sinais claros que aquele indivíduo não a queria. Fazia confusão, trocava letras e desculpas.

Eles iam embora e ela ainda assim não conseguia entender.

Decifrava sentidos ocultos em mensagens displicentes. E perseverava nos erros.

Cada início de relacionamento era a mesma coisa. “É esse”. Nunca era.

Muitas vezes o amor passou e ela, na troca de fonemas, deixou escapar. Outras vezes se agarrou por engano ao total desamor (ah, essas palavras tão parecidas!)

As amigas, essas mais fluentes em interpretação de texto, logo percebiam a dificuldade de compreensão. Mas ela insistia. E na dança das palavras e sentimentos embaralhados ia se perdendo e se distanciando, a solidão cada vez mais evidente.

Até que um dia, depois de repetir tantas e tantas vezes, desistiu de aprender sobre o amor. Fechou os livros, pediu alta da terapia, jogou o celular fora e percebeu que o melhor tratamento para um coração disléxico ainda é a música.

 

Cecília Attux

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