Mergulho.

Eu cresci ouvindo que era necessário sair da ilha para ver a ilha. De fato era, mas era necessário que eu voltasse, para ser tudo aquilo o que vi.
Com a ponta dos dedos me agarro as bordas ruidas da velha banheira, de forma muito lenta, transmitindo talvez a sensação do uso de muito esforço, me inclino de umbigo para o centro e me arrasto para o fundo e para dentro da banheira. Ela está vazia, exceto por uma pouca poça cansada, que agora aguarda calada a poucos centímetros do meu rosto.
Mergulho a cara.
É assim, de olhar submerso e respiração suspensa, que me sinto ao caminhar pelas ruas da velha cidade.
Seria alguem, capaz de transitar por entre suas próprias estruturas? Como um ser reduzido a escala microscópica e inserido no próprio organismo, realizando assim uma espécie de passeio turístico de si, sob cada pilar erguido, cada marca talhada e cada postura forjada.
Naquela cidade há uma rua chamada revolta, outra chamada recomeço. Em uma rua já não é bem quisto, em outra mata a sede no sabor do beijo.

_ Alô, hoje a Lua morreu.

A labradora de pelos prateados, devidamente apelidada, estava doente, cansada, morreu.
Quantos amigos já não vivem mais aqui?

_ Oi, tô na cidade!
_ Eu não tô.
Só existe tempo se houver movimento.
Ao observar tão mais de perto a poça, esse resquício de oceânicas memórias, é como se o homem se afastasse pé ante pé, tomando distância e contemplando com exatidão o corpo no qual logo em seguida mergulhará, para ser e viver aquilo tudo o que enxergou.

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