Eu me lembro como se fosse ontem.

lembroEu me lembro como se fosse ontem. O suave sol dos domingos entrava pela janela e despia os contornos do seu corpo. Uma vitrola tocava na sala um disco arranhado, enquanto você repetia os mesmos gestos circulares no meu peito, encarando meus olhos frios. Em uma pia, duas escovas também se amavam, tocando os seus cabos gastos pela rotina. Na cozinha, pratos se empilhavam entre tantas taças e copos vazios. Nós tínhamos os nossos livros. A nossa prateleira. A nossa vida. Tínhamos um ‘nós’. Eu conhecia os teus gostos. As tuas manias bobas. Cada uma das tuas cicatrizes. Quantas vezes não abracei firme os teus pedaços? Quantas vezes, por outro lado, você não revisou cada um dos meus versos recém impressos, aconchegada dentro de uma camisa antiga? Naqueles dias, eu entenderia o significado da palavra felicidade. Infelizmente, uma palavra que sempre me escapou pelos lábios. Eu me lembro como se fosse ontem. Mesmo sem nunca ter existido.

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