Os bons costumes (ou Balada dos homens que negociavam desertos)

Aquilo era a coisa mais estranha que já vi e não havia dúvidas de que estava errado. Não se parecia comigo, não agia como eu. Não andava como eu ando e dizia coisas que não digo. Aquilo não amava o que eu amo e, com certeza, não compartilhava minha opinião.  Aquilo era a coisa mais estranha que já vi, porque aquilo não era eu”.

 

Eu fui nascido de família séria, fui criado sob disciplina rígida. Meus pais, defensores da ética e da moral, se certificaram de me ensinar, desde menino, sobre os códigos dos bons costumes e da razão. Eu fui poupado de toda aberração, falta de escrúpulos, indecência, palavrão.
Aprendi muito cedo o meu papel de homem, o papel da minha mulher, o lugar dos empregados, o que era certo, o que era errado, foi me dado sempre as melhores coisas e a melhor educação. Eu tenho muito a agradecer meus pais, e é na criação dos meus que eu transmito o que a mim foi dado e demonstro gratidão.
Quero meus filhos lapidados como eu, ora, é meu direito como pai. Tem coisas lá fora que não quero que meu filho veja, que eu não quero que meu filho ouça, tem coisas hoje lá fora que corrompem e ameaçam minha árdua dedicação de transformar meu filho num cidadão. Imagine só! Como é que eu vou explicar pra um filho meu que Pedro e Antônio não tinham direito de se amar?
Que outra criança igual a ele não tem sequer o que comer, imagina com o que brincar?
Que um país foi dizimado e o outro contra atacado porque o deus que um pregava, o outro não aprendeu a adorar?
Que uma garota que ele conhece não tem os direitos que ele tem simplesmente por ser mulher, e que por mais primitivo que isso pareça, ela ainda sofre abuso, medo, preconceito, apanha do namorado e, mesmo tendo dois empregos, porque trepou no primeiro encontro, agora é a vagabunda do bairro.
Que ele não tem direito a opinião, que a gente já não sabe quem é policia, quem é ladrão. Que a política não tem mais jeito, que estética gera desemprego, que cor da pele é diferenciação.
Que travesti é assassinado, que duvidar de deus é pecado, que abuso de poder é engraçado. Como é que eu vou explicar pra um filho meu,
que puta que pariu é desespero,
que miséria, injustiça, desrespeito é que é palavrão.

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