Quando os pequenos poderes entram em campo.

pequenos_poderes

 

Essa coisa do poder é um lance que começa cedo. Quer ver só? Todo mundo já teve um amiguinho de infância que era dono da bola. E era bem ruinzinho de bola também. Diz ai, ele tinha ou não lugar garantido no time? Tinha sim, e quem ia pro gol era você. A menos que fosse você o dono da bola. É de pequeno que se aprende os pequenos poderes.

Enquanto isso fica no campinho do bairro, tudo bem. Afinal, as crianças se entendem, sempre dão um jeito de praticar o fair play. Para elas o mais importante é aproveitar a brincadeira ao máximo, até o apito final. Ou até a mãe de alguém mandar o mini craque pro chuveiro.

Só que todos esses garotos vão crescer, inclusive o dono da bola. E se a coisa do poder não morrer ali entre as quatro linhas, o perna de pau pode virar o vizinho temido e intransigente, que vai se incomodar com a pelada na frente de casa. Cuidado, se a bola cair no seu território, fim de jogo. O poder mudou para o outro lado do muro. Saiu debaixo do braço e foi pra cabeça.

A vida é um jogo para profissionais.

Toda hora nos deparamos com malditos pequenos poderes exercidos por gente grande. É um time, contando os reservas, de chefes coagindo funcionários, clientes maltratando garçons, autoridades se valendo do poder da caneta, ricos comprando honras, intelectuais vomitando seus saberes. Sabe com quem você falando? É o poder exercido nas formas ideológica, econômica e política. Tudo junto, o tempo todo, de todo tamanho. Dá pra escolher de P a XGG. E olha só, dependendo da situação ou até num momento de distração, nós também corremos o risco de fazer falta. Se liga ou vai levar cartão vermelho. É preciso estar atento e forte.

Forte é o novo poderoso do bem.

Acredito demais nas pequenas revoluções, no exercício dos pequenos poderes – do bem – como forma positiva de mudança nas relações sociais. Um simples gesto de cordialidade, gentileza, solidariedade, de uma só pessoa que seja, tem a capacidade de virar o jogo a favor de uma multidão. É o que eu costumo chamar de gentileza sustentável, que se multiplica devagar mas de forma irreversível. É quando o amor entra em campo, o time se agiganta e comove a torcida.

Há muito tempo eu não vou ao estádio assistir uma partida de futebol. Pra falar a verdade, perdi um pouco o gosto, acho que o poder financeiro deixou o zagueiro no chão, ganhou de goleada. Mas se tem uma coisa que eu gosto – e não deixo de fazer – é assistir a cidade.

Um domingo desses saí de casa para mais um dos meus passeios sem compromisso, sem destino certo. No caminho me deparei com uma sucessão de mini eventos. Confesso que até estranhei a quantidade. Era uma linda tarde de sol. Pela janela do carro assisti de doação de cachorrinhos de rua a arrecadação de agasalhos. Também vi aulas de ginástica, massagem em idosos, oficina de brincadeiras, distribuição de flores, palhaços no farol e cantoria no meio da praça. Caramba, quanta coisa boa acontecendo lá fora!

É como se cada pequena iniciativa fosse um jogador. Num time que só tem camisa 10.  Juntos, estes craques do bem formam uma seleção incansável e imbatível contra qualquer tipo de autoritarismo. Não tem defesa que segure esse ataque em massa. É a força da massa popular. Aqui o jogo é diferente, a técnica conta bem pouco, o que vale mesmo é a cultura humanista. Parece uma volta dos dribles desconcertantes do futebol das tardes de domingo. O craque está reaprendendo a jogar com o coração na ponta da chuteira.

Esse papo de futebol me deixou animado. Deu até vontade de ir ao estádio. Tô pensando em assistir uma partida da série B, quem sabe C. Será que ainda existem os campos de várzea?

Bola pro alto que o jogo vale um campeonato!

Faz tempo que deixei de subestimar os pequenos times.
Deles sairão os grandes craques-humanos do futuro

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