Carta para um amigo.

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Em tempos de whats e-mails essa coisa de carta anda meio em desuso.

Conheço gente que nunca viu um envelope de borda verde amarela com selos ilustrados colados no canto direito. Muito menos as delicadas folhas finas, pautadas, preenchidas com palavras escritas a mão. Mesmo as belas caixas de correio, inabaláveis na sua rigidez de ferro fundido, tiveram que se reinventar. Agora posam de modelo retrô nas fotos do Insta. Vintage, se você preferir. O fato é que foi-se o tempo das esperas, hoje em dia a mensagem é mais instantânea que miojo. Tem até app que mostra o texto antes mesmo da pessoa enviar. É a mensagem chegando em tempo pré-real.

Pode ser que o jeito pré-histórico de se comunicar tenha saído de cena bem antes de você chegar. Pegar papel, caneta, escrever letra por letra, é um ritual que leva tempo. E se você for perfeccionista, vai recomeçar do zero toda vez que errar. Admito que tem poesia nisso, mas dá muito trabalho. Sem falar que depois tem a ida ao correio, a procura por uma vaga, a fila de quem está lá pagando contas, a lambida no selo antes de colar… Ah não, difícil demais! Volta lá e digita.

Se a tecnologia acabou com a carta, os carteiros continuam firmes, resistindo a toda forma de modernidade. A todo momento tem alguém entregando uma mensagem pra você. Aliás, isso inclui você, que mesmo sem saber anda entregando cartas por aí. Sim, somos todos remetentes e destinatários ao mesmo tempo. Somos todos mensageiros a todo tempo.

Pode reparar, vivemos recebendo cartas das pessoas com as quais nos relacionamos. Algumas boas, outras nem tanto. Às vezes os mensageiros chegam em horas que estamos distraídos e aí demoramos para abrir o envelope. Outras vezes lemos as cartas na exata hora em que elas chegam, mas só vamos entender a mensagem muito depois. E lá vem um sonoro “Caramba! Como não percebi isso antes?” Não viu porque não quis ler. Não leu porque aquela não era a hora certa.

Nenhum encontro é por acaso. Não há aproximação sem reação. Tem sempre uma ou mais cartas em jogo. Toda entrega é um recado, toda leitura é um ensinamento. O aprendizado depende da capacidade de decifrar a mensagem.

Há alguns dias um amigo abriu uma antiga carta diante de mim. Nenhuma novidade, a mensagem era notícia do jornal de ontem. Mesmo assim a lição foi bem dura. A impressão era de que ele havia relutado em aprender até o fim. Na verdade, não precisava nem ter lido, era coisa que ele já sabia.

Na mesma hora eu também recebi uma carta e abri. A mensagem pra mim tinha um teor de lembrança, uma espécie de aviso. Nela estava escrito uma coisa que eu também já sabia. Que aliás, eu mesmo escrevi um dia.

O acaso é caso pensado do destino.

1 comentário

  1. Penso que hoje tudo é banalizado,as pessoas amam e sofrem numa intensidade muito grande, na velocidade da luz,lembro me da minha adolescência quando amava platonicamente durante anos,mandava cartas com adesivos de coração e papel perfumado e esperava a resposta por carta também.hoje o cara te adiciona no whats e num piscar de olhos está a jurar amor eterno! Em resumo o sentimento das coisas hoje são descartaveis.

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