Silêncio, por favor.

silêncio

 

 

Calem o mundo que eu quero escutar.

Nunca fui um cara silencioso, o contrário disso. Carrego a fama de falador e até de barulhento. Tem sempre uma televisão ligada onde estou, mesmo que eu não esteja assistindo. Piso forte no chão de madeira, batuco na parede, disparo a campainha quando chego em casa, bato o garfo no copo enquanto espero o prato. Ficar quieto é quase um suplício pra mim.

Acontece que mesmo gente como eu precisa de silêncio. Pra falar a verdade, parece que todo mundo precisa de silêncio. Do presidente de topete loiro que fala demais à seleção da Arábia que fica quieta de menos.

Tudo bem, silêncio é uma coisa bem controversa. Ficar muito quieto, intriga as pessoas. Não ficar quieto, provoca revolta. Vai entender.

O não-silêncio deve ser uma das invenções do mundo moderno.

Perceba, tudo que é agitado faz ruído. Já o silêncio tem a ver com calma, é amigo íntimo da paciência. É aquela coisa que eu invejo no pescador. O resto é sinal (muitas vezes sonoro) de urgência. A humanidade anda apressada demais para perceber essa diferença. Trrrim-trrrim-trrrim! Escuta só, é o telefone tocando impaciente. Não consigo escrever mais uma palavra, o jeito é atender. Alô!

Pelo menos não era ninguém com ofertas do telemarketing.

Voltei. Abaixei o volume da TV para continuar. O mundo já foi bem mais quietinho, pelo menos é o que dizem. Eu acho que isso é verdade mesmo. Hoje, só sendo budista de um destes mosteiros bem longe daqui pra chegar perto do tal de silêncio interior. Tem coisa demais fazendo barulho dentro da gente. Barulho demais desvia a atenção, inclusive os não sonoros. Din-don, din-don, din-don! Pô, de novo? Agora é a campainha. Já nem sei mais se consigo terminar este texto. Já vou!

Visita das boas. Tem som que não é barulho.

Era uma vez um lugar em que se escutava histórias. Eu vivi num lugar assim. Quase toda noite colocávamos cadeiras na calçada, olhávamos a lua, ouvíamos o vizinho dizer boa noite. Deitávamos, sem televisão ligada, para escutar os pingos da chuva e se assustar com os trovões. Mesmo em companhia, ficávamos quietos. Só para ouvir. Para nos ouvir. Uma boa parte das pessoas desaprendeu viver assim. Mas é tão claro, para aprender a gente tem que escutar! Só que, para escutar, é preciso saber fazer silêncio.

Todo silêncio é uma forma de apreender. Com dois “es” mesmo, no sentido de assimilar.

Fico pensando se queremos mesmo os tão desejados momentos de paz. Pode ser. Só que a urgência vive em nós. Há uma necessidade insana do não-silêncio. A hipótese do silêncio incomoda como uma bateria de fogos de artifício. Perturba a quem desaprendeu ficar consigo mesmo. Insulta a quem não aprendeu o que é ouvir o silêncio alheio. Desligue o primeiro celular aquele que suporta uma mensagem não respondida.

Silêncio não tem sequer onomatopeia.

Não dá para simular o silêncio. Mesmo os quadrinhos mais geniais representam a ausência de barulho com um cri-cri-cri ou um zzzzzzzzzzzzz. De mosquito ou de sono. Ou seja, para existir o silêncio precisa de uma ajudinha. Até na linguagem escrita, onde o som é literalmente inexistente.

Também dizem, com certa frequência, que outro grande problema da humanidade é a falha na comunicação. Talvez o problema seja a falta do silêncio. Não dá pra negar, o provérbio mudou. Quando um fala, o outro… escuta!

No fim, o que vale mesmo é saber ouvir. Psiu!
Não, desta vez não é ninguém me chamando. Sou eu mesmo me lembrando de calar.

O silêncio cabe onde a palavra não serve.

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