Guia prático da metamorfose individual

Sou da época em que mandavam a gente virar gente. Gente que se esconde pelos cantos feito poeira em dia quente. Gente com medo de pensar, apoiada em livros e líderes.
Sempre fui meio torto, meio bosta, meio singular, apaixonado por companhia e entusiasmado pelo meu silêncio.
Saí de casa cedo, meio fugido, sem arrumar a cama nem nada. Saí com medo de me tornar o monstro social que eu via todas as manhãs, de carapaça grossa e chifre no meio da testa, urrando e derrubando tudo pela frente.
Saí ileso, mas de heranças impregnadas. Fui capaz de amar, de conviver, sorrir, trazer pra perto, mas sou incapaz de dizer quão bem e quão mal fiz ao amar alguém.
Construí, desconstruí, concordei, joguei mesas pra cima, me disseram “oi”, eu disse alguns “adeus”.
Voltei, arrumei a cama, fiz o café, coloquei açúcar, passei do ponto. Amarguei!
Me senti pequeno, sem espaço, corri pra rua, corri pra multidão… O espaço ficou ainda menor.
Entrei em mim, virei fumaça, voei de balão, perdi o endereço e não prestei atenção no caminho. Acharam uma carapaça de barata sentada no sofá da sala, ainda calçada com meu par de tênis mas já sem vida.
Acharam aquilo tudo meio torto, meio bosta, meio singular demais.
Eles ficaram cheios de “achos”,
e eu,
fiquei cheio de todos eles.

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