Quando a vida me cobrou coragem, pensei em recuar.

Quando fui embora da minha cidade natal, saí com certa fama de corajoso, de rapaz durão. Sob a pose de alguém que não tinha medo e que ate ria do que pudesse acontecer.
Mas a verdade é que no banheiro do aeroporto, enquanto uma voz no autofalante chamava insistentemente o meu voo, eu chorei.

Chorei porque eu estava apavorado, ansioso. Sentia-me absurdamente pequeno perto do mundo de possibilidades em que eu estava prestes a mergulhar. Mas eu não tinha mais muita escolha, meus poucos trocados foram gastos com a passagem que me levaria pra longe de lá. E agora, desistir de tudo e ficar me parecia bem pior do que qualquer coisa que pudesse vir a acontecer. Então me reergui, me entreguei ao embarque e durante o voo que era um tanto longo, tive tempo para pensar. Me dei conta de que a tão famosa coragem não era ausência de medo, mas estar lucido para perceber que o que você faz da sua vida, precisa fazer sentido para você.
Era uma tragédia dos diabos abrir mão de tudo o que você tinha conquistado e trocar por incertezas, por uma aposta que poderia leva-lo a lugar nenhum, era um jogo e eu tinha pagado para jogar. Mas então me visualizei bem velho, sentado naquele lugar aonde nasci, aonde aceitei confortável tudo o que meus braços podiam pegar. Me imaginei pensando no que eu poderia ter sido, em tudo o que eu poderia ter visto e vivido. Em todas as perguntas que eu jamais conheceria a resposta.
Ninguém nunca te dará a certeza de que tudo vai dar certo e a verdade é que não vai mesmo. Mas você tem de saber que se precisar, você pode olhar mais uma vez para trás e voltar. Você é saudável, inteligente e tem agora uma bagagem. Então sempre poderá tentar algo novo ou até tentar de novo o que você já sabia fazer. Nem que seja para se manter por um tempo até tentar outra vez.
Quanto as pessoas que me diziam coisas como “não troque o certo pelo duvidoso.” ou “você já fez um tanto do seu curso, agora vai largar?”. Imaginei aquele velho que era eu e nenhuma dessas pessoas estava lá. Porque elas tinham vivido suas vidas, fizeram o que acreditaram que tinham de fazer e agora já tinham partido ou estavam desfrutando de tudo o que tinham conquistado. Elas tinham vivido e eu também precisava viver.
Quando me dei conta já era hora de desembarcar, era o primeiro passo para fora do avião e para dentro da vida.
Ali naquele aeroporto me dei conta de que viver era estar sempre se metendo de cabeça em algo e abraçando os resultados desses mergulhos. E que se não fosse assim, eu não sei se um dia poderia dizer que vivi.

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