Ananda

Seu universo era, para muitos outros, um espaço quadrado diminuto, escuro e um tanto quanto bagunçado, mas para ela era bem mais do que o suficiente para viver e dar vida as tantas vidas que tinha em sua imaginação.

Parecia viver isolada, deixar-se sozinha, mas tinha ao seu redor os melhores tipos de companhia que se pudera conhecer, homens e mulheres de intelecto graúdo, personagens distintos em seu favor, requisitados à qualquer momento, atendiam ao seu pedido como quem atende a uma ordem.

Seu maior desejo era ser aquilo, que para ela, eles eram.

Sua liberdade e, ainda mais que isso, dizia com ardor nos lábios, que toda sua vida, todos os seus sentimentos, todos os seus sonhos, eram lidos e versados, antes de serem vividos. E com um vívido olhar de encanto, passava horas e dias, debruçada em meio à tantos mundos, sonhos, cores e ideias.

Andava por linhas e entrelinhas, folheava sutilmente, página por página, com seus olhos, mansos e reflexivos, donos de uma calma inebriante, consumia o que a consumia.

Os clássicos eram seus prediletos, o seu pão de cada dia.

E à cada noite, em sua cama, deitava com alguém diferente ao seu lado, dormira uma noite antes com Dostoievski, em outra com Orwell, e depois disto tinha a sua mercê Pessoa e Quintana, ambos deixando-a em pleno êxtase, envoltos em um clima que tendia a ácida e viciante mistura de poemas e erotismo.

Não tinha em seu cerne nenhum tipo de preconceito ou distinção, às vezes deitava-se com Arendt ou Blavatsky, Lispector ou Florbela, e hoje seu corpo lhe pedira uma presença mais cálida.

Com Savary, seu corpo contorcia-se em uma miríade de emoções, as quais sentira sem vivê-las de fato.

Comia do fruto proibido, bebia da fonte dos desejos, dos poetas e sonhadores partilhava das mesmas emoções.

Entremeando momentos em que parecia estar em uma tragédia grega ou em uma divina comédia, vivia amores platônicos, incendiava-se por completo com ódio e ciúme e logo em seguida estava embebida por lágrimas da mais pura melancolia que se possa sentir.

Imaginava-se vivenciar cada história, e em cada conto ou verso vivia as desventuras de uma personagem como quem vive um momento último e único.

E sua única vontade era a de continuar a viver essa vida de viver as vidas que talvez nunca viesse a viver, e com cada livro que lia, sabia que conseguia com isso, aos poucos, seu sonho realizar, de ser quem quisesse e estar aonde lhe vier a pensar, pois era ciente que em sua frente não tinham apenas palavras avulsas e sim portas abertas para conceber qualquer mundo que desejasse conhecer.

E assim sua vida seguia, mais à cada dia, seu pensamento tendia ao eterno, sabendo que em mãos tinha o segredo daqueles que nunca irão morrer.

Se a carne se esvai, as palavras perduram, e podem te fazer, diante do tempo, não mais perecer.

6 comentários

  1. E sua única vontade era a de continuar a viver essa vida de viver as vidas que talvez nunca viesse a viver, e com cada livro que lia, sabia que conseguia com isso, aos poucos, seu sonho realizar, de ser quem quisesse e estar aonde lhe vier a pensar, pois era ciente que em sua frente não tinham apenas palavras avulsas e sim portas abertas para conceber qualquer mundo que desejasse conhecer.
    Juro que perdi a voz!! muto emocionada com tamanha descrição,definição… enfim eu!!

    Curtido por 1 pessoa

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