Um lugar para brindar às derrotas.

Já estava escuro quando ela passou pela entrada. Sentou na mesa mais afastada e pediu um chocolate quente. Eu sei por que vi quando a garçonete lhe serviu.
A gente nunca pensa que alguém está próximo o bastante de nós. Eu podia ouvir sua respiração e o som que saia de seus lábios, mas ainda assim, para mim, ela estava sentada na mesa mais afastada.
A máquina de café refletia de forma distorcida a minha imensa cara.
A gente nunca acha que é bom o bastante para que alguém vá reparar em nós. Mas agora, sentado aqui, acabei de me dar conta de que não sei ao certo mais quem sou.
Sei exatamente quem ela é, seu nome, aonde estuda, a que horas e porque vem aqui… Mas acho que não sei dizer bem quem sou, ou a quanto tempo deixei de ser, de usar aquelas roupas e ouvir aqueles velhos discos.
A muito tempo não reparo na maneira como me visto para vir até aqui. Saio sempre com o ar besta, desconectado, pensando se ela vai ou não surgir outra vez.
Ontem no ônibus de volta para casa havia uma frase rabiscada na parte de trás do acento, bem de frente para mim, provavelmente escrita por alguém usando as mesmas roupas mal escolhidas que eu. Dizia:
“O paraíso é ser-se perfeito.”.
Além de usar as mesmas roupas, o cretino provavelmente sabia também que eu me sentaria ali e escreveu aquilo para mim.
Mas eu sabia o que era preciso para ser feliz, só nunca soube bem como fazê-lo.
Ora, Fernão! Como posso me sentir assim, como posso sentir-me perfeito, se eu souber que ninguém mais sente, que não há ninguém mais que pense assim?
Como alguém pode ser-se perfeito, sem antes, sentir-se importante para alguém?
Agora já fazem umas duas horas desde que ela saiu.
Se levantou, espanou os farelos do vestido e veio até mim. É que sabe como é, eu me sento sempre próximo ao balcão, ao lado da caixa registradora.
Ela estava parada ao meu lado, eu podia sentir seu calor. Pensei que meu coração fosse saltar pela boca.
– “O paraíso é ser-se perfeito” – Eu repeti como um mantra.
Eu era, eu tinha de ser!
Eu precisava tomar coragem e fazer alguma coisa, só precisava acreditar que era capaz e merecedor de algo assim.
Quando ela abriu a bolsa em busca da carteira, pude ver sua comanda cair no chão. Era algum tipo de sinal de deus, ele queria que eu fizesse aquilo.
Prendi a respiração, me abaixei e apanhei a comanda. Com a cara mais débil e a dificuldade que se encontra para falar quando se esquece de voltar a respirar, me virei na direção dela e lhe alcancei.
– Você deixou cair a sua comanda!
Ela agradeceu, pagou a conta e nunca mais me enxergou.

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