O Taxidermista e as flores nossas de cada dia

Naquela época eu estava trabalhando no “Amor de Pet taxidermias” em tempo integral e passava todo o período da tarde empalhando animais de estimação que eram queridos demais para serem deixados para trás por seus donos.
Durante a noite, eu havia me comprometido a cuidar das plantas de minha esposa, que tinham morrido todas por causa de uma viagem que fizemos à casa de seus pais e isso a deixara bastante chateada. Não é tão difícil cuidar de uma planta quanto é empalhar um animal, mas requer uma certa dedicação que eu não costumava ter e essa rotina ganhou minha atenção.
Comecei a ver uma grande ligação entre empalhar animais de dia e dar vida às plantas pela noite. Não a óbvia ideia de que vida e morte são uma ponte ou que o amor e a morte se equivalem, mas sim a imensurável sensação de que nos negamos a dar fim as coisas. De que não nos damos bem com os pontos finais.
É como quando ficamos atrelados às janelas dos trens em movimento, decantando cada segundo a mais daquela efêmera companhia, daquele findavel olhar. Queremos sempre um pouco mais, uns minutos a mais. Pra dizer o que não dissemos, pra sentir o que não tocamos, pra viver o que negligenciamos.
Não é que tenhamos medo da morte ou o desejo da eternidade, não, que bobagem, é só o velho hábito de desejar uns segundos a mais para fazermos tudo o que não fizemos durante a vida toda.
Pensando nisso, quero mais é me alimentar. Dos dias, dos amores, dos fracassos, dos rancores, dos sabores, do sexo, dos meus cachorros, dos meus devedores, dos meus amigos, dos inimigos, rir dos deuses e dos meus castigos. Nunca me deixar levar e amar, amar mesmo se tiver medo de não ser amado.
Só espero que minha devota senhora, quando chegar minha hora,
não me coloque empalhado num canto da sala,
a regar meu pé todo dia.

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