Necrópole 1 – A cidade dos ausentes

Veio planando. Dando de costas para o verde do campo e mergulhou débil para o dentro da fresta emperrada. Ali deu voltas, duas, mais uma, outra à volta dos restos que restavam imóveis no silêncio e como um pesado veículo de motor interrompido, pousou.
Roberto assistira à tudo, havia chegado na metade, vira apenas duas voltas antes do pouso mas ao que vira, dera total atenção. Presenciaria um espetáculo.
De comparação às arenas romanas.
De comparação ao canal de animais.
A mosca que invadira sua sala não notou, mas a pouco mais de um metro de onde pousou, a fome investia na sorte do jantar.
Roberto se atentava aos detalhes porque se ausentava do geral. Tinha a cautela dos cirurgiões e a urgência dos suicidas. Com exceção da janela emperrada que aguardava a visita agendada do zelador, Roberto não abria nada. Mantinhas as janelas fechadas, a lareira apagada, as portas trancadas. Trabalhava de casa, pedia a feira pelo telefone, quando muito com alguém falava, o fazia pela trinca da porta.
Roberto tinha medo, achava a vida um perigo.
Antônio morreu de atropelamento, dizia ele.
Marcelo de indigestão.
Era assim desde menino, trocou as brincadeiras na rua pelo videogame no quarto, até ler um dia um artigo sobre carga elétrica e do aparelho amigo cortar relações.
Roberto sabia que morreria, é claro, não é que se iludia do contrário. Mas fecharia qualquer acordo, qualquer tratado que tardasse a ocasião.
Apertou o olhar em duas fendas no momento em que o animal de fome, em passos de silêncio, se aproximou quase por completo da mosca e um pouco mais de tempo aguardou.
Dava sempre de ombro às coisas do amor, jamais lhe passou pela cabeça se apaixonar. Assunto de tolos. Dizia em alto bom som pra si mesmo. Ao atropelo dos trens, sucumbem os enamorados.
Se vestiu não de preto, mas de ausência no enterro dos pais.
De tristeza também se morre, companheiro. Disse olhando pro espelho. O mesmo serve se for alegre por demais.
Era o horário inabalável dos assuntos da vida, para a mosca não havia saída, para a fome também não. Teria perdido o momento exato do ataque se por sequer algum segundo tivesse pestanejado. Mas Roberto assistiu a tudo e muito sutilmente expirou e inspirou aliviado quando constatou que o lobo viera, mas comera a ovelha do lado.
A vista de uma mosca ausente Roberto sorriu debochado. Uma vez mais permanecia intocável, a morte tola provou que um dia vinha, mas outra vez à despista-la.
A vista de um Roberto ausente a morte sorriu debochada. Se morrer era com a vida um rompimento de laços, Roberto então nunca estivera vivo.

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